Desconfinamento: uma história de heróis e vilões

24 Junho 2020

Por Tiago Manuel Rego

Presidente da FNAJ

Desconfinamento: uma história de heróis e vilões

O risco é real e temos todos, sem exceção, de conviver com este facto. A reação perante este infortúnio coletivo tem de ser global. Não é o momento para moralidades entre gerações, o que deve sobressair é uma solidariedade e uma responsabilidade transversal a toda a sociedade, para que juntos ultrapassemos esta provação.

Dos mais jovens aos mais velhos há bons e maus exemplos, mas creio que aqueles que fazem da máscara, do desinfetante e da distância física os seus aliados neste atípico verão serão sempre, felizmente, a maioria.

O desafio do “novo normal” requer cautela, respeito e ponderação face ao desejo de conquista da liberdade perdida, após meses a lidar com a frustração e o medo e com a exposição de muitos jovens a novos níveis de ansiedade: pela incerteza nos processos de avaliação, pelos pais assoberbados de teletrabalho, ora aflitos pela falta de emprego e irmãos mais novos em casa. Os jovens angustiaram-se com a fragilidade de uma existência que achavam mais segura e viram os seus planos serem adiados, sem saber quando os poderão retomar, apoiando-se na relação com os seus amigos como escape, perante o adiar consecutivo do fim da pandemia e da retoma da vida a partir do exato momento em que tudo mudou. Esta esperança da vinda do dia em que tudo voltaria a ser como antes alimentava as conversas nas redes sociais e sossegava os mais jovens, de espirítos inquietos e ávidos para viver um mundo que acreditavam que estavam a mudar para melhor. Aqui falhou a comunicação!

A ausência de um fim anunciado gerou em nós uma reação irracional. Para alguns jovens que querem socializar de imediato, a distância social não se revelou compatível com o estar junto e aqui começa o perigo e a inconsequência de atos impensados.

A perda das férias com os amigos, dos festivais de música, da prática das suas modalidades desportivas, do encerramento dos bares e discotecas, são demasiadas interdições sem soluções equivalentes. Todos ou quase todos sabemos o que não podemos fazer, pelo que agora precisamos que nos digam o que podemos fazer, em segurança.

O desconfinamento, assim como aconteceu com o confinamento, é diferente de pessoa para pessoa, pois em causa estarão sempre as suas rotinas, o seu estrato social e os seus gostos. Todas estas variáveis interferem neste processo, que também se altera entre faixas etárias. Se para os adultos, que têm a sua própria casa e um futuro estabilizado, a adaptação é mais serena, para os jovens, cuja reunião com os amigos acontece maioritariamente na rua e o seu futuro se revela incerto, o ajuste é mais custoso, pelo que se vive e se encara esta nova realidade de modos de estar diferentes.

Este é o momento de apontarmos caminhos para atenuar as perdas, além das inevitáveis, que esta pandemia nos trouxe. Ganham assim ainda mais relevo as associações juvenis de base comunitária como espaços seguros e ponto de encontro para os jovens neste momento excecional, garantindo uma socialização responsável, compatível com a prática de atividades lúdicas, desportivas e culturais. Assim, minimizamos comportamentos de risco e, mais do que isso, garantimos e ativamos os jovens para ser parte da solução, pois é assim que devemos sempre olhar para a juventude.

A minha geração, que já provou ser de causas coletivas e globais, está unida a fazer deste momento a sua nova causa.  Acredito que este episódio da nossa história moderna fará justiça à capacidade de intervenção das jovens gerações na proteção e solidariedade às mais vulneráveis, durante os dias de confinamento e no agora. Nós, jovens, a quem tantos nos exigem, esquecendo-se por vezes de como foram na nossa idade, continuaremos a ser o “grilo falante” deste mundo, mantendo-nos fiéis a nós próprios, com mais ideias que tempo, mas que sonhamos concretizá-las todas.

Nesta história, na qual só há um vilão, são muitos os heróis, uns maiores que outros pelo seu papel na narrativa, sendo o contributo de todos determinante para o final feliz que almejamos.

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