E depois da pandemia? Estará o futuro jovem hipotecado?

14 Maio 2020

Por Tiago Manuel Rego

Presidente da FNAJ

E depois da pandemia? Estará o futuro jovem hipotecado?

Como vai mudar a nossa vida? Está o futuro dos jovens suspenso por melhores dias? Quais serão os impactos futuros desta crise? São questões para as quais as respostas se revelam incertas, tal como o futuro da juventude.

“Estamos de tanga”, “acabou o tempo das vacas gordas”, “bancarrota”, “crise mundial”, “austeridade”... A minha geração já ouviu tudo isto vezes de mais. Quando algo mau se inicia esperamos sempre que seja passageiro, todavia, a crise entranhou-se no período histórico em que esta geração - a mais bem preparada, bem formada e muito desenrascada -, luta por uma emancipação condigna. Depois da crise das dívidas soberanas em 2008, o futuro dos millennials voltará a tropeçar noutra crise, provocando um novo retrocesso no caminho desbravado até então com muito esforço, resiliência e criatividade.

É neste ciclo vicioso de instabilidade que a minha geração se tem habituado a (sobre)viver. As crises têm demonstrado que são sempre mais penosas para as jovens gerações que acabam por regressar demasiadas vezes à casa de partida.

Sabemos que, pela primeira vez, uma geração vai viver pior do que a anterior. Sabemos que não teremos um emprego para vida. Sabemos que poderemos não vir a ter uma reforma. Sabemos que estamos a perder o nosso planeta. Sabemos demasiadas coisas más para encararmos o futuro com um sorriso. Porém, reinventamo-nos constantemente e alimentamos a alma com causas humanitárias e soluções para um mundo viciado na crise.

Apesar de todos estes percalços a minha geração enfrentará a hecatombe económica que se avizinha com garra e determinação, dispondo de um inigualável poder de inovação social. Mas o embate deve ser feito com proteções que o Estado deve criar àqueles que um dia serão os zeladores do mundo.

Num momento em que o nosso país já se foca no “depois da pandemia” e muitas são as medidas que surgem, é imperativo incluir a juventude nas prioridades da ação governativa. Apesar da imprevisibilidade temos algumas certezas, as necessidades dos jovens vão alterar-se por força das mudanças profundas que virão. Ainda desconhecemos muitas delas, mas já nos vamos apercebendo que estão longe de se restringirem à economia, passando por mudanças sociais, culturais e comportamentais nos nossos modos de vida.

O emprego e a habitação jovem serão as prioridades maiores. Com a crise pandémica a fechar empresas e a pôr a economia em standby, os despedimentos e a não renovação de contratos serão uma consequência, para a qual se exige um reforço da verba de programas de apoio, para a conquista de um trabalho digno e de uma habitação acessível, símbolos maiores da autonomia da juventude.

O empreendedorismo jovem na ciência, na cultura, no associativismo e no desporto deve ser ainda mais estimulado e apoiado pelo Estado Social, ativando a juventude para a resolução de problemas ao serviço do país, dando continuidade à digitalização, desmaterialização e reinvenção que ganhou novo folgo com a crise.

A educação pós-pandemia deve ser repensada para que as aulas sejam espaços de discussão de ideias e não apenas de exposição de conteúdos, contribuindo para a coexistência de competências educativas e de intervenção social em jovens cidadãos.

A causa ambiental não deixará de ser uma luta, pois se há lição maior desta pandemia é o efeito nefasto da ação humana sobre os ecossistemas. A diminuição drástica da nossa pegada ecológica, durante o confinamento, prova que aquilo que os jovens têm reivindicado é real, tendo a Humanidade de optar no agora pela afamada economia verde.

É imperativo precaver situações de falta de acesso da juventude aos seus direitos, sendo dever do Estado identificar, agir e antecipar os seus problemas, em linha com a visão dos jovens e das suas organizações.

As repostas têm de vir, de todos os lados, dos municípios ao governo, do setor público ao privado, para que o futuro das novas gerações não seja hipotecado.

A esta geração, menos convencional e mais social, mais inclusiva e menos conservadora, dizem que o mundo está nas suas mãos, mas de que vale construirmos vidas e casas de papel se à mínima turbulência tudo desmorona como um castelo de cartas? Não queremos ser a geração mais rica em sonhos e ideias para o mundo, mas que não as concretiza por falta de oportunidades. Lembremo-nos sempre do que está em causa: uma juventude sem horizontes é uma Humanidade sem presente e futuro.

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